Obrigada a deixar a Ucrânia por causa da guerra, Tamara Motrich encontrou em Baião um território de acolhimento e inspiração. Na pintura, construiu um espaço de observação, silêncio e criação, agora partilhado com o público na sua primeira exposição em Portugal.
A Biblioteca Municipal António Mota, em Baião, inaugurou esta segunda-feira, 2 de fevereiro, pelas 16h30, a exposição de pintura “Árvore à Beira da Estrada”, da artista ucraniana Tamara Motrich. A mostra, patente ao público até 28 de fevereiro, assinala a primeira exposição pública da autora em Portugal e resulta de um processo criativo profundamente ligado ao território onde hoje vive.
Natural de Kiev, na Ucrânia, Tamara Motrich chegou a Portugal na sequência da guerra que a obrigou a deixar o seu país. Escolheu Portugal “intuitivamente, entre os países que acolhiam refugiados” e vive em Baião há mais de um ano. Doutorada em Filosofia, foi docente universitária e investigadora principal no Museu de Personalidades da Cultura Ucraniana, mantendo sempre uma relação próxima entre pensamento, ciência e criação artística.
Em Baião, encontrou um espaço de acolhimento e inspiração. “Baião é um lugar encantador. As montanhas lembram o oceano: ondas de terra solidificada. As pessoas locais são acolhedoras e a natureza inspira”, refere. Atualmente, trabalha na Biblioteca Municipal António Mota, dedica-se à pintura e ao estudo da língua portuguesa, num quotidiano marcado pela introspeção e pela criatividade.
A exposição “Árvore à Beira da Estrada” reúne 19 obras, criadas durante o outono, já em Baião. As pinturas, maioritariamente em tela, recorrem a óleo e acrílico, integrando também uma obra em lã colada, posteriormente restaurada. “As obras refletem a minha perceção da natureza de Baião e do meu estado interior”, explica a artista.
A ligação à natureza atravessa toda a exposição e o próprio percurso da autora. “A natureza é a criação de Deus. O ser humano é parte desta criação. Para mim, a natureza e o ser humano são como órgãos de um mesmo corpo, interligados”, afirma, sublinhando que esta relação influencia tanto a sua vida interior como o seu trabalho artístico. A pintura, acrescenta, “é uma forma de expressão da alma, de observação do mundo, de comunicação com Deus e com a natureza”.
O título da exposição encerra uma dimensão simbólica forte. “Árvore à Beira da Estrada simboliza o meu caminho e a observação contínua do mundo, como uma árvore na encruzilhada, que cresce segundo as suas próprias leis”, explica Tamara Motrich, estabelecendo uma ponte entre a experiência pessoal, o território e a criação artística.
Para a vereadora da Cultura da Câmara Municipal de Baião, Olívia Mendes, que esteve presente na inauguração da exposição, este momento reforça o papel da biblioteca como espaço vivo de cultura e encontro, sublinhando que “em Baião, território de paz, a cultura tem também esta função: receber, escutar e dar lugar às histórias de quem aqui chega. A exposição de Tamara Motrich simboliza essa capacidade de criar pontes, mesmo quando os percursos pessoais nascem de contextos difíceis”. Na ocasião, a vereadora parabenizou a artista, convidando-a a permanecer no território e a contar com os baionenses, um povo que sabe acolher e receber, pelo tempo que necessitar.
Visivelmente emocionada por apresentar o seu trabalho em Baião, a artista deixa uma mensagem aos visitantes: “Para mim, é importante que vejam não apenas as pinturas, mas também a minha verdade interior e o desejo de união com a natureza e o mundo. Cada pintura ganha vida junto com o espectador, e convido todos a sentirem um espaço de cuidado, atenção e, talvez, paz interior”.
